sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Mark-to-Market da Política Monetária


Hoje no jornal Valor há uma matéria citando o presidente do Banco Central que teria ressaltado “a necessidade de maior transparência na comunicação dos Bancos Centrais, para evitar interpretações extremas”.   Continua o Jornal, “Tombini disse que a crise deixou clara a necessidade dos Bancos Centrais serem menos herméticos, mais transparentes, na sua comunicação”.   Excelente! 
Mas, aí vem a parte que não entendi: “Não se trata apenas de fortalecer os mecanismos de formação de expectativas dos agentes, mas também de evitar que interpretações com variância excessiva possam afetar o funcionamento dos mercados”.  Claro.  Mas, segundo ele, “ao benefício de uma maior transparência na comunicação se contrapõem mudanças mais frequentes nas sinalizações.  Mas não penso que por conta disso vamos ou devemos retornar ao hermetismo do passado ou a um estilo de comunicação que permanece em generalidades e perde em precisão. Neste momento de transição, esse ‘tradeoff’ apenas tende a acarretar um custo reputacional um pouco maior para os Bancos Centrais.”              
Não entendi !   O objetivo da transparência é reduzir a volatilidade, mas ela aumenta? ??
O FED (o banco central americano) é transparente.  Muito mais transparente que a maioria dos Bancos Centrais.  Isso não o faz mudar de opinião a cada swing dos mercados.  Há algum tempo, dados melhores da economia americana fizeram que críticos de Bernanke (presidente do FED) disparassem suas metralhadoras contra ele. Em nenhum momento, Bernanke mudou seu discurso de manter os juros baixos até 2014.  Tivesse o FED reagido aos novos dados, o comunicado emitido após suas reuniões teria mudado esta indicação e, agora que os dados voltaram a fraquejar, ele voltaria a sinalizar que os juros ficariam baixos por longo prazo.   Não vimos isso acontecer.
           Como já disse, em um de meus primeiros posts,  as decisões de política econômica sempre serão controversas já que os interesses e opiniões dos diversos agentes dos mercados (empresas, governos, trabalhadores, estudantes, ricos, pobres) são naturalmente divergentes.  Juros altos são desejados pelos rentistas  e juros baixos são a bandeira dos empresários.  A arte de se “achar” a  melhor taxa de juros não é cabal e sempre haverá quem acha determinado nível suficiente ou insuficiente.    Portanto, a discussão a respeito de uma determinada decisão de política monetária, tomada dentro de certos limites, é quase inócua e apenas um bom assunto para se conversar ao redor de uma mesa de chopp.  Contudo, a comunicação do Banco Central a partir das teorias sobre expectativas racionais e no contexto de “Metas para  Inflação” deve ser precisa. É a partir delas que os agentes econômicos tomam suas decisões.
          Um empresário decide investir com base em projeções, que dependem em grande parte das sinalizações emitidas pelos “policy makers”.   Contratar ou demitir, aumentar a fábrica ou não, exportar ou importar, são decisões que envolvem custos e riscos e não podem ser tomadas com base na variação do IBOVESPA no dia anterior, elas dependem da compreensão do cenário econômico e das políticas econômicas.
           Dados econômicos nos períodos pré-crises e pós-crises são naturalmente voláteis e muitas vezes contraditórios.  Não é razoável tomar-se uma decisão por que o dado de vendas no varejo subiu ou caiu em determinado mês.  Menos razoável é tomar uma decisão com base na variação de índices de bolsas.  O “cenário” econômico não pode mudar a cada 40 dias.  Por isso,  economistas usam modelos econométricos que tentar separar  tendências de flutuações.  É também papel dos “operadores” dos modelos fazer suposições quanto algumas variáveis com base no estudo e discussão dos eventos econômicos visando reduzir a volatilidade dos resultados destes modelos.
           Perda de credibilidade não é um efeito colateral menor. Um Banco Central não pode arriscar sua credibilidade, nunca !     A credibilidade do Banco Central é condição sine qua non para o Modelo de Metas Para Inflação, que é o mandato que o Banco Central Brasileiro tem.
              Independentemente de mandato, de se ter metas de inflação ou não, o objetivo final das políticas econômicas é o desenvolvimento econômico.  Incertezas diminuem o crescimento.  Confiança é um ativo difícil de se conquistar, custou uma década ao Brasil.  Perde-la é rápido.  Reconquistar é quase impossível.

3 comentários:

  1. ! interpretações com variância excessiva possam afetar o funcionamento dos mercados”. Claro. Mas, segundo ele, “ao benefício de uma maior transparência na comunicação se contrapõem mudanças mais frequentes nas sinalizações.
    Sinalizações só de trânsito. BACEN é outra coisa, exceto quando há interferência do Executivo Federal. Até aquele Ministro Pimentel "palpita", passando-se por"boi de piranha".
    O Brasil não é um pais sério. Piora cada dia. Bagunça com bandalheira até no futebol.Basta relembrar um pouco, incluída a época dos "milicos". Estão deixando saudades. Foi quando o Brasil cresceu, apesar de alguns males cometidos.
    Marito Cobucci

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  2. Se comentário me fez lembrar um adesivo que circulou no início da década de 90: "Delfim eu era feliz e não sabia".

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  3. Com certeza a transparência de uma Banco Central tem razão direta com sua independência. Isso se vê de forma clara no Brasil, as influências políticas se fortalecem, perdem todos ao longo do tempo. Aquilo que colhemos de frutos no curto prazo, resulta em pouco quando comparado ao que se perde no longo prrazo.
    Quanto ao fator credibilidade, me remete a uma frase que ouvi há muito tempo: Não basta ser honesto, há que se parecer honesto!!

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