Hoje no jornal Valor há uma matéria citando o
presidente do Banco Central que teria ressaltado “a necessidade de maior
transparência na comunicação dos Bancos Centrais, para evitar interpretações
extremas”. Continua o Jornal, “Tombini
disse que a crise deixou clara a necessidade dos Bancos Centrais serem menos
herméticos, mais transparentes, na sua comunicação”. Excelente!
Mas, aí vem a parte que não entendi: “Não se
trata apenas de fortalecer os mecanismos de formação de expectativas dos
agentes, mas também de evitar que
interpretações com variância excessiva possam afetar o funcionamento dos
mercados”. Claro. Mas, segundo ele, “ao benefício de uma maior
transparência na comunicação se
contrapõem mudanças mais frequentes nas sinalizações. Mas não penso que por conta disso vamos ou
devemos retornar ao hermetismo do passado ou a um estilo de comunicação que
permanece em generalidades e perde em precisão. Neste momento de transição,
esse ‘tradeoff’ apenas tende a acarretar um custo reputacional um pouco maior
para os Bancos Centrais.”
Não entendi
! O objetivo da transparência é reduzir a volatilidade,
mas ela aumenta? ??
O FED (o banco central americano) é
transparente. Muito mais transparente
que a maioria dos Bancos Centrais. Isso não o faz mudar de opinião a cada swing dos mercados. Há algum tempo, dados melhores da economia
americana fizeram que críticos de Bernanke (presidente do FED) disparassem suas
metralhadoras contra ele. Em nenhum momento, Bernanke mudou seu discurso de
manter os juros baixos até 2014. Tivesse
o FED reagido aos novos dados, o comunicado emitido após suas reuniões teria
mudado esta indicação e, agora que os dados voltaram a fraquejar, ele voltaria a
sinalizar que os juros ficariam baixos por longo prazo. Não vimos isso acontecer.
Como já
disse, em um de meus primeiros posts, as
decisões de política econômica sempre serão controversas já que os interesses e
opiniões dos diversos agentes dos mercados (empresas, governos, trabalhadores,
estudantes, ricos, pobres) são naturalmente divergentes. Juros altos são desejados pelos rentistas e juros baixos são a bandeira dos
empresários. A arte de se “achar” a melhor taxa de juros não é cabal e sempre
haverá quem acha determinado nível suficiente ou insuficiente. Portanto, a discussão a respeito de uma
determinada decisão de política monetária, tomada dentro de certos limites, é
quase inócua e apenas um bom assunto para se conversar ao redor de uma mesa de
chopp. Contudo, a
comunicação do Banco Central a partir das teorias sobre expectativas racionais
e no contexto de “Metas para Inflação”
deve ser precisa. É a partir delas que os agentes econômicos tomam suas
decisões.
Um
empresário decide investir com base em projeções, que dependem em grande parte
das sinalizações emitidas pelos “policy makers”. Contratar ou demitir, aumentar a fábrica ou
não, exportar ou importar, são decisões que envolvem custos e riscos e não
podem ser tomadas com base na variação do IBOVESPA no dia anterior, elas
dependem da compreensão do cenário econômico e das políticas econômicas.
Dados
econômicos nos períodos pré-crises e pós-crises são naturalmente voláteis e muitas
vezes contraditórios. Não é razoável
tomar-se uma decisão por que o dado de vendas no varejo subiu ou caiu em
determinado mês. Menos razoável é tomar
uma decisão com base na variação de índices de bolsas. O “cenário” econômico não pode mudar a cada
40 dias. Por isso, economistas usam modelos econométricos que
tentar separar tendências de
flutuações. É também papel dos “operadores”
dos modelos fazer suposições quanto algumas variáveis com base no estudo e
discussão dos eventos econômicos visando reduzir a volatilidade dos resultados destes modelos.
Perda de
credibilidade não é um efeito colateral menor. Um Banco Central não pode
arriscar sua credibilidade, nunca ! A
credibilidade do Banco Central é condição sine qua non para o Modelo de Metas
Para Inflação, que é o mandato que o Banco Central Brasileiro tem.
Independentemente de mandato, de se ter metas de
inflação ou não, o objetivo final das políticas econômicas é o desenvolvimento
econômico. Incertezas diminuem o
crescimento. Confiança é um ativo difícil
de se conquistar, custou uma década ao Brasil.
Perde-la é rápido. Reconquistar é
quase impossível.
! interpretações com variância excessiva possam afetar o funcionamento dos mercados”. Claro. Mas, segundo ele, “ao benefício de uma maior transparência na comunicação se contrapõem mudanças mais frequentes nas sinalizações.
ResponderExcluirSinalizações só de trânsito. BACEN é outra coisa, exceto quando há interferência do Executivo Federal. Até aquele Ministro Pimentel "palpita", passando-se por"boi de piranha".
O Brasil não é um pais sério. Piora cada dia. Bagunça com bandalheira até no futebol.Basta relembrar um pouco, incluída a época dos "milicos". Estão deixando saudades. Foi quando o Brasil cresceu, apesar de alguns males cometidos.
Marito Cobucci
Se comentário me fez lembrar um adesivo que circulou no início da década de 90: "Delfim eu era feliz e não sabia".
ResponderExcluirCom certeza a transparência de uma Banco Central tem razão direta com sua independência. Isso se vê de forma clara no Brasil, as influências políticas se fortalecem, perdem todos ao longo do tempo. Aquilo que colhemos de frutos no curto prazo, resulta em pouco quando comparado ao que se perde no longo prrazo.
ResponderExcluirQuanto ao fator credibilidade, me remete a uma frase que ouvi há muito tempo: Não basta ser honesto, há que se parecer honesto!!