Talvez a taxa de câmbio melhor para mim seja R$ 1,75/dólar, para um exportador talvez seja R$ 2,20, para um importador talvez seja R$ 1,50. A taxa de juros ideal para mim (que sou poupador) seria de 15%, mas para quem toma dinheiro a melhor taxa talvez seja 5%.
As críticas se constroem com base nestas preferências em face às escolhas dos “policy makers”. Neste sentido, como resultado da opinião de cada um, todas as críticas são válidas. Contudo, ao analista econômico sério cabe apenas explicitar quem são os ganhadores e perdedores de determinadas escolhas de política econômica e explicitar incoerências de objetivos e métodos da política econômica.
Podemos, grosso modo, definir a política econômica atual em 3 pilares:
- Redução da taxa de juros real;
- Preservação de uma taxa de câmbio mais elevada (um real menos valorizado);
- Políticas industriais através de subsídios setoriais, barreiras comerciais e direcionamento do crédito público.
A redução da taxa de juros - para um nível ainda desconhecido – tomada ceteris paribus desincentiva a poupança e incentiva os investimentos. Assim, se de um lado a poupança das famílias tende a se reduzir e o consumo a aumentar e de outro os investimentos crescem é de se esperar um aumento no déficit em conta-corrente, ou em outras palavras, haverá a necessidade de importação de “poupança”.
A preservação de uma taxa de câmbio mais elevada, em termos reais, implica na redução do poder de compra do salário (redução dos salários reais), desincentiva importações e beneficia exportações. Há, entretanto, efeitos colaterais dados os métodos ou caminho escolhido para atingir este objetivo, que é o de dificultar a entrada de capitais.
Ao se restringir entrada de capitais gera-se um claro conflito de objetivos. Para crescer mais, precisamos importar “poupança” e bens de capitais. Sem a poupança externa e sem importações de bens de capitais limita-se o potencial de crescimento.
Na questão cambial um aspecto relevante, já citado neste post e pouco observado por comentaristas econômicos, é que a escolha por uma taxa de câmbio específica é também uma forma de distribuição de renda, dos consumidores para os “industriais” ou o inverso. Não há sentido em mudanças nominais na taxa de câmbio, portanto, qualquer condução da política cambial visa uma certa taxa de câmbio real que implica em aumento ou redução dos salários reais, ponto.
Quanto a forma da “política cambial”, a opção por restringir a entrada de capitais tem o objetivo de tentar reduzir o custo para o tesouro de acumular reservas e como efeito colateral reduzir a oferta de capitais para o setor privado, então, o resultado é uma transferência do custo da política econômica para o setor privado.
Para amenizar o efeito colateral negativo – menor entrada de capitais – o governo tenta aumentar o crédito através das instituições oficiais, Caixa, BB e principalmente BNDES. Este último, ganhando massa através da capitalização com recursos do Tesouro.
Finalmente temos a política industrial, que através de subsídios e barreiras comercias (a competidores). Este tipo de política implica na escolha de setores “vencedores” e “perdedores”, aqueles que merecem e os que não merecem. Então, por exemplo, se reduz o IPI sobre a linha branca e não o da cerveja, se dá benefícios para a fabricação de ipads no Brasil, mas não se reduz o imposto de renda da classe média. Enfim, é uma questão de escolha.
O problema das escolhas e preferências é que elas são, em geral, resultado simples da opinião/juízo de valor de alguém (ou alguns) e, portanto, na essência contestáveis, já que, como disse, opinião cada um tem a sua. Do ponto de vista da Teoria Econômica, respaldada pela experiência histórica, este tipo de política só é eficiente em estágios incipientes ou por períodos determinados, pois, caso contrário, agem com incentivos a ineficiência relativa (beneficiam setores menos produtivos a custa dos mais produtivos) reduzindo a produtividade da economia do país.
De qualquer forma, para não me alongar, objetivo deste artigo é explicitar um fato: a política econômica atual é um grande programa de transferência de renda. Aqueles que recebem estão felizes e apoiam. Aqueles que pagam, entre eles eu, estão num puta mal-humor.
Sidão, o Mal-Humorado
Perfeito. Só não vejo uma política econômica de longo prazo, mas um 'montão' de reações... Parabéns pelo blog.
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